A questão da birra e o papel do adulto saudável

Por diversas vezes no trabalho, no consultório ou na escola, deparei-me com situações em que as crianças manifestaram comportamentos inadequados diante de uma situação desafiadora. Estou falando das  “birras”, do choro excessivo, de gritos e de comportamentos que me fizeram pensar em como elas não estavam preparadas para lidar com tudo aquilo. Pensei: mas o que seria estar preparada, principalmente quando falamos de crianças, às vezes tão pequenas, que certamente não viveram experiências nem parecidas com essas anteriormente?

Será que poderíamos treinar esses comportamentos adequados?  Talvez existam maneiras de se fazer isso, por exemplo, simulando situações? Na verdade, uma parte disso a escola já faz, ou deveria fazê-lo, sobretudo com o objetivo de criar um ambiente  problematizador, que favoreça a construção de pensamento e apresente para a criança um mundo de possibilidades e estratégias para resolver os desafios. Mas e as crianças que já chegam para a escola com essa demanda? Principalmente as mais novinhas, como citei agora a pouco. A busca por esta resposta me levou à consideração das primeiras relações afetivas estabelecidas com elas. Não teve jeito, entendi que teria que falar dos pais e professores, e teria que falar de afeto.

Se pensarmos nos primeiros anos de vida, naqueles momentos em que tudo que vivem é pela primeira vez, a comunicação que se estabelece  é a mais primitiva, é aquela que vem antes das palavras. Envolve os sentidos e a linguagem afetiva.

Uma vez, quando estava trabalhando com  capacitação de professores numa creche em São Paulo, uma educadora, muito preocupada, me contou que determinada criança de cerca de dois anos não a obedecia, não parava quieta, batia e mordia as outras crianças com frequência. Contou que dava muitas broncas nessa criança, mas que nada adiantava. Lembro-me até hoje de sua expressão de contrariedade quando  lhe pedi que me explicasse o que ela realmente estava fazendo para ajudar aquela criança (quase bebê) a sair dessa fase. E se realmente ela acreditava que suas broncas estavam sendo eficientes. Foi então que conversamos sobre o que realmente ela precisava (que certamente não eram das tais broncas) e o que é esperado que um adulto que se proponha a educar faça nessas situações.

Primeiramente, sugiro que tenhamos a clareza de que a criança sente quando o adulto que está lidando com ela, realmente a quer bem e se empenha para ajudá-la. Está é uma questão que pode fazer toda diferença na situação.

Num segundo momento, sugiro que façamos a leitura da birra como um pedido de ajuda, seja por insegurança, por busca de instrumentos adequados ou até por estar passando por um momento de  confusão de pensamentos e sentimentos.

Nesses momentos  as crianças precisam de referências, de um porto seguro que as ajude a organizar, nomeando ou não, o que esteja acontecendo com elas. Esse papel é exercido geralmente pelo adulto “saudável” que está mais próximo.

Lidar com crianças birrentas significa estar disponível para ajudá-las. Ouvir, questionar, fazer combinações, mostrar-se verdadeiramente atento(a) a elas, são estratégias que funcionam bem. Estar seguro(a) do que é certo ou errado e do que realmente é bom para ela, também é de extrema importância.

Evitemos ceder à birra ou propor trocas sem sentido. Há quem resolva a situação dando presentes, não façamos isso, por favor! Acreditemos, excesso de mimos representa falta de afeto. Um adulto realmente preocupado com a criança não cede a esses comportamentos, mas os compreende e lida com eles!

 

Adriana Henriques Ajej
Psicologia
SancorSaude – Unidade Paraíso
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